Igreja Matriz Santo Antônio de Guaporé – História, Fé e Patrimônio
A história da Igreja Matriz Santo Antônio está profundamente ligada à formação de Guaporé e à fé dos imigrantes italianos que colonizaram o município. Em sua maioria católicos, os primeiros moradores encontraram, nos anos iniciais da colonização, dificuldades para receber assistência religiosa. Sacerdotes jesuítas deslocavam-se esporadicamente de Lajeado para atender as famílias da região. Entre eles estava o Padre Bernardo Bolle, responsável pela celebração da primeira missa, em 1884, realizada em uma residência.
A primeira capela de Guaporé, construída em madeira, surgiu em 1899. Com o crescimento da comunidade, tornou-se necessária uma igreja maior. Em 1914, quando a paróquia já estava sob os cuidados dos sacerdotes scalabrinianos, foram lançados os alicerces de um novo templo, inaugurado em 1917. Em estilo colonial e considerado, à época, “grande e majestoso como uma catedral”, o edifício tornou-se o principal espaço de celebração da fé da comunidade.
Cerca de duas décadas depois, entretanto, o crescimento populacional novamente exigia uma estrutura maior. Em 1938, a Cúria de Porto Alegre aprovou um projeto para a ampliação da igreja e construção de uma nova fachada em estilo gótico, com duas imponentes torres de 53 metros de altura.
Naquele mesmo ano chegou a Guaporé o Padre Ângelo Corso, jovem sacerdote scalabriniano de personalidade marcante e grande disposição para o trabalho comunitário. Defensor da construção de um templo completamente novo e mais amplo, inicialmente teve sua proposta rejeitada. Anos mais tarde, porém, a ideia ganhou força e, na segunda metade de 1947, foi assinado o contrato para a construção da nova Igreja Matriz.
A nova igreja foi inaugurada em fevereiro de 1950, em uma grande celebração que se estendeu por uma semana. A programação reuniu missões, missas solenes cantadas pelo Seminário São Carlos e diversas comemorações populares. Entre as autoridades presentes estavam o Arcebispo Dom Vicente Scherer e o então governador Valter Jobim.
O novo templo recebeu elementos artísticos e arquitetônicos que reforçaram sua imponência. O altar foi confeccionado em mármore de Carrara e granito, harmonizando-se com as características da igreja, enquanto os vitrais foram adquiridos por meio de uma casa importadora de Porto Alegre.
Mais do que elementos decorativos, os vitrais constituem uma verdadeira catequese em imagens. Suas cores intensas e suas representações conduzem o visitante por importantes acontecimentos da História da Salvação.
Sobre as portas menores da fachada voltadas para a praça, os vitrais recordam a história da Congregação Scalabriniana. No lado oeste está representada a fundação da congregação dos padres e seu fundador, João Batista Scalabrini. No lado leste, aparece a fundação da congregação das irmãs, com Madre Assunta e Padre José Marchetti.
No lado esquerdo de quem ingressa pela porta central, os vitrais apresentam passagens do Antigo Testamento: Adão e Eva expulsos do Paraíso; o sacerdote Melquisedec; o sacrifício de Abraão; e a travessia do Mar Vermelho pelo povo hebreu. Na Capela do Sacrário estão representadas a Anunciação do Anjo a Maria e sua coroação como Rainha do Céu e da Terra, tendo entre as duas cenas o Cristo Ressuscitado.
À direita, as imagens representam o Nascimento de Jesus Cristo, a Eucaristia, a Crucificação e a Ressurreição. Na capela lateral encontram-se ainda representações do Sermão da Barca e das Chaves de Pedro.
No fundo da igreja destaca-se o altar em mármore de Carrara, com o tabernáculo protegido por um delicado baldaquim e, acima, a imagem de Cristo na cruz branca. No frontispício encontram-se, em bronze, o ramo de oliveira, a cepa de vinha e o símbolo do nome de Jesus. Sobre o altar estão os castiçais em estilo gótico.
O presbitério é enriquecido pela obra “Fonte de Todas as Graças”, pintada por Emílio Benvenuto Zanon, representando a fonte divina que sacia as almas sedentas.
Sobre as portas internas das sacristias encontram-se outros importantes elementos simbólicos. À esquerda, a águia e o pelicano representam o sublime e a caridade; à direita, o leão e a serpente simbolizam a força e a prudência. As peças foram cinzeladas por Alfred Staege.
A sacristia guarda ainda um crucifixo vindo da Alemanha em 1934, doado por uma pessoa cuja identidade não foi registrada. Devido ao seu peso, a peça é utilizada apenas em cerimônias especiais da Semana Santa.
Na ornamentação interna, predominam diferentes tonalidades de lilás, criando uma composição harmoniosa e seguindo o princípio da unidade na diversidade.
Um dos acontecimentos mais marcantes da história da Igreja Matriz ocorreu em 16 de setembro de 1998. Naquela tarde de quarta-feira, durante a Semana Farroupilha, um curto-circuito no teto provocou um incêndio de grandes proporções.
As chamas causaram severos danos ao templo e uma profunda comoção entre os guaporenses. Apesar da destruição da cobertura e de grande parte do interior, as paredes permaneceram de pé, simbolizando, de certa forma, a resistência da própria comunidade.
A tragédia rapidamente deu lugar à mobilização. Fiéis, moradores, entidades e apoiadores uniram esforços para reconstruir um dos maiores símbolos religiosos e históricos de Guaporé.
Menos de um ano depois, em 13 de junho de 1999, data dedicada ao padroeiro Santo Antônio, a Igreja Matriz foi solenemente reinaugurada.
Hoje, a Igreja Matriz Santo Antônio é muito mais do que um templo religioso. É um patrimônio que preserva parte importante da história da colonização, da cultura italiana, da presença scalabriniana e do desenvolvimento de Guaporé.
Suas torres, vitrais, obras de arte e riqueza arquitetônica despertam a atenção de moradores e visitantes e fazem da igreja um dos principais cartões-postais do município.
Localizada junto à Praça Central, integra um dos cenários mais representativos de Guaporé e constitui uma importante referência para o turismo religioso, histórico, cultural e arquitetônico.
Visitar a Igreja Matriz Santo Antônio é conhecer uma história construída ao longo de gerações, uma trajetória marcada pela fé, pela arte, pela memória e, sobretudo, pela união da comunidade guaporense.
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